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domingo, 17 de junho de 2012

Resenha do livro: A Semana de Arte Moderna de Neide Rezende

O pequeno livro de Neide Rezende, pertencente à coleção Princípios da Editora Ática, tem 80 páginas e está organizado em oito capítulos. Na Introdução, que equivale ao primeiro capítulo da obra, a autora, doutora em Educação e mestre em Letras pela USP, nos revela que a Semana de Arte Moderna aconteceu entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, reunindo músicos, escritores, poetas, pintores, arquitetos, escultores. O evento vem sendo comemorado desde o ano de 1942, o que coincide com o reconhecimento de que ele favoreceu a consolidação do Modernismo brasileiro e a conquista de nossa emancipação artística.

 Nessa parte da obra a autora nos dá a conhecer as três fases do movimento artístico derivado do evento de 22. Uma primeira fase, de negação e desconstrução dos cânones artísticos precedentes, estaria compreendida entre a exposição de Anita Malfatti, em 1917, e a Semana de Arte Moderna. Entre os anos de 1922 e 1930 a autora revela a existência da fase heróica, marcada pelo experimentalismo e a construção de uma nova estética. A terceira e última fase, de maturação e estabilização duraria os quinze anos seguintes ao ano de 1930.
Já no segundo capítulo trata-se de estabelecer os antecedentes da Semana de Arte Moderna, conforme anunciado no título. Segundo a autora, o ano de 1917 seria o ponto de partido do Modernismo em nosso país, porque deu-se nesse ano a realização da exposição de Anita Malfatti e a aproximação entre Mário e Oswald de Andrade.

Também nesse capítulo a autora trata detalhadamente da exposição de Anita e da polêmica inaugurada pela crítica de Monteiro Lobato, apresentado como baluarte do pensamento oficial. O movimento recebeu muitas críticas e acabou chocando a população como era esperado pelos manifestantes, inclusive o escritor Monteiro Lobato lançou na imprensa um artigo atacando na arte de Anita aquilo que seria o aspecto mais valioso para a atualidade: a proposta de deformação da realidade, o uso da figura somente como pretexto para expressar e a negação da arte acadêmica.

O capítulo terceiro nos informa acerca da organização do evento, motivado pelas comemorações do centenário da independência política do país.  O Teatro Municipal de São Paulo tornou-se a opção escolhida para abrigar a SAM pelo impacto que tal localização teria. Inspirados em festivais como os de Deauville, a elite econômica e a vanguarda cultural buscavam ideias e recursos para a realização do evento que também contou com o patrocínio do presidente de estado, Washington Luís, bem como de Paulo Prado, latifundiário e comerciante de café, e do rico deputado e empresário, José Freitas Valle. O patrocínio viria, portanto, da elite econômica, curiosamente aliada da vanguarda artística. Os protagonistas do movimento, apesar das diferentes personalidades, tinham em comum o intuito de valorizar a cultura nacional, em especial o folclore, e combatiam a cópia e a valorização da arte de outros países. Para os modernistas, a arte tinha de ser entendida como recreação e os artistas tinham que ser criativos.

A SAM contou com o apoio de Graça Aranha, juntamente com a amizade e a disponibilidade financeira da elite. Partiram em busca de outros apoios na cidade do Rio de Janeiro, com o intuito de fortalecer, garantir o brilho e a consistência do evento, por meio das participações de Villa-Lobos e Ronald de Carvalho.

O leitor da obra tem acesso à reprodução da programação musical e das palestras e conferências do evento no capítulo quarto, que apresenta ainda as condições em que muitos dos atos aconteceram: cercados de vaias e pateadas vindas da plateia. O catálogo foi elaborado por Di Cavalcanti e discretamente divulgado pela imprensa. O primeiro dia transcorreu em calma, a apresentação de Graça Aranha e Villa-Lobos foram bem recebidas pelo público Entre os episódios mais divertidos e comentados está a apresentação de Villa-Lobos, de casaca e chinelos, em virtude de uma crise de gota. No segundo dia, a luta do futurismo contra o parnasianismo deixou a platéia em alerta, porque o verdadeiro espetáculo estava para começar, com divergências até mesmo em cima do palco, mas ainda assim se esperava uma reação ainda mais violenta. O papel da imprensa, em especial d’O Estado de S. Paulo, fica consignada nesse capítulo.
   
No capítulo 5 está reproduzido o programa das artes plásticas e a exata distribuição das obras no Municipal, tal como referidas por Yan de Almeida Prado. Nele estão elencados os principais nomes das artes plásticas – consideradas, em especial a pintura, as principais responsáveis pelo impulso de renovação –, da música, da poesia e da prosa.
A pintura modernista estava empenhada em combater a arte acadêmica que caracterizava o realismo, mas não era ainda suficientemente livre para dispensar a forma exterior e lançar-se à abstração pura, que seria incorporada ao movimento mais tarde. Assim, Anita Malfatti encontrou no impressionismo sua forma de expressão. Di Cavalcanti foi influenciado pelo Cubismo e pelo Expressionismo alemão – e desse último incorporará a técnica de aproveitamento do espaço e da deformação da pintura. Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro mostram em seus trabalhos a introdução dos temas populares e folclóricos do Brasil. Essa tendência prevaleceu em todas as formas de arte após a semana, e pode-se dizer que Villa-Lobos foi um dos primeiros músicos a realizar com sucesso tal experiência. Vários artistas – pintores, escultores, arquitetos – que expuseram no Teatro Municipal, ou que de outra forma participaram do movimento modernista, acabaram se reposicionando no cenário artístico ou profissional, ao tempo que outros a esse se incorporaram após a semana. 

Até o movimento modernista, pode-se dizer que se partia da realidade exterior para se expressar sentimentos interiores, e agora, todas as artes em sua forma específica de manifestação precisavam se virar pelo avesso para expressar a realidade interior do sujeito, naquilo que Mário de Andrade batizou de “realismo psicológico” ou estabelecimento da ordem do “subconsciente”. Subverte-se a ideia de realidade, que passa a expressar o mundo interior.

A poesia conheceu a libertação da métrica e da rima prefixadas, o que permitiu a expressão da essência do eu do poeta, por meio do verso livre, da rima livre e das imagens simultâneas, o que a colocaria vinculada às percepções cotidianas e às emoções imediatas do poeta.
Quanto à prosa, Oswald de Andrade busca na linguagem cinematográfica uma possibilidade de captação simultânea do real, por meio da composição em cenas. A exemplo do teatro, o cinema não se fez representar no Municipal. Quanto à dança, a falta de referências a Yvonne Daumerie faz crer que não chegou a se instituir em tendência ou em espetáculo de importância para a época. Segundo a autora, “as propostas apresentadas ficaram curiosamente aquém das realizações pelo simples fato de que não se sabia exatamente o que se queriam e quem as expunha não entendia bem o que estava acontecendo.”[1] Tudo isso porque Graça Aranha e Menotti Del Picchia, os porta-vozes do movimento, para o público, não eram seus legítimos representantes.

O capítulo sexto está destinado às considerações finais. A formação moderna no Brasil concilia uma linguagem importada das vanguardas européias, com um conteúdo nativista que resgata as raízes culturais brasileiras. Essas novas tendências estéticas proporcionaram aos artistas modernistas paulistanos uma nova forma na linguagem, além da liberdade de expressão, ousadia e autonomia em seu potencial artístico. Os modernistas conviveram de perto com a arte europeia, seja por contato direto ou por outras fontes de informação. Paris, que era o centro de toda produção artística da época, influenciou os novos rumos da arte brasileira.

Através da divulgação das novidades chegadas da Europa, a arte brasileira começou a se mesclar, originando sua matéria sob a forma de técnica europeia. A absorção desta arte se uniu aos elementos da nacionalidade brasileira, consolidando o processo modernista. Assim, a arte moderna começa a se caracterizar através de padrões diferentes daqueles estabelecidos na Semana de 22.

A repulsa a essa nova forma gerou polêmica entre os passadistas e os modernistas, pois havia uma diferença na forma como as emoções eram expressas. Todavia, isso não era um mera questão estratégica, mas apenas maneiras distintas de os indivíduos expressarem a sua sensibilidade.

São Paulo ainda estava em processo de desenvolvimento urbano, mas já criara um caráter de metrópole. O número de imigrantes crescia nas zonas rurais para o cultivo do café e nas zonas urbanas na mão-de-obra operária. São Paulo passava por diversas greves feitas pelos movimentos operários de fundamentação anarquista, porém, com a Revolução Russa de 1917, o partido comunista foi fundado e as influências do anarquismo na sociedade iam se diluindo aos poucos, e ela se tornava cada vez mais diversificada. No entanto, os modernistas de primeira hora não se alinharam com esse segmento social. Na década de 60, os modernistas se engajam no Tropicalismo, que valoriza o passado, sem tentar destruí-lo, e por meio da alegoria tratam de questões antagônicas, sem cometer ironias exageradas como antes acontecia. O sétimo capítulo traz o vocabulário crítico necessário ao entendimento de um leitor iniciante na matéria.

A obra que ora examinamos apresenta um conteúdo didático, permitindo de forma imagética aproximar o leitor de um dos movimentos artísticos mais importantes do país. A SAM foi um movimento com forte repercussão no país e a autora do livro apresenta esse conteúdo com muita clareza, de forma reflexiva, cumprindo com os objetivos de uma série editorial chamada “Princípios”.

O livro se propõe mostrar o marco do Modernismo brasileiro, juntamente com os protagonistas que buscaram a renovação nas artes plásticas, musicais e literárias, trazendo a identidade nacional e cultural brasileira. Trata-se, enfim, de uma obra rica em detalhes de forma explicativa em seu conteúdo, mostrando uma visão ampla de um movimento polêmico que veio reivindicar e representar a liberdade de expressão do artista brasileiro.

Aline Cristiane Silva
Jéssica Pereira de Souza
Lilian de Souza
Naiana Lacerda
Natália Oliveira Primo
Sofia Mariana Martins Neves

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Rezende, Neide. A Semana de Arte Moderna. São Paulo: Ática, 1993. 80 p


[1] REZENDE, 1993, p. 49.

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